O Patrono

o patrono

Aldo Miccolis – um nome fazendo a história

O nascimento do esporte para pessoas com deficiência no Brasil

   Pode-se afirmar, sem dúvida nenhuma, que Aldo Miccolis é uma das pedras fundamentais do movimento paralímpico do Brasil. Um homem além de seu tempo. Desde 1958, sua luta foi bastante árdua, no sentido de divulgar o esporte e o direito de cidadania das pessoas com deficiência no Brasil. Naquela época, nada consistente acontecia a respeito. Ao formar 2 equipes de basquetebol em cadeira de rodas, viajou pelo país, visitando mais de 100 municípios, fazendo exibições e palestras.

   Esta história verdadeira começou no chamado Dia da Mentira – 1º de abril: Era o ano de 1958. Nessa ocasião, foi fundado o “Clube do Otimismo”, por Robson Sampaio de Almeida, um cadeirante, evangélico batista, alagoano radicado no Rio de Janeiro, que após ter sofrido um trágico acidente nos Estados Unidos, ficou em uma cadeira de rodas. Para desenvolver seu projeto social e esportivo, Robson convidou para ajudá-lo a realizar seu sonho, o jovem Aldo Miccolis, também evangélico batista, com 26 anos, que nessa época era preparador físico do exército. Assim foram formadas as primeiras equipes de basquetebol em cadeiras de rodas no Brasil.

   Estando o Clube do Otimismo já criado, entidade pioneira do esporte e da reabilitação de pessoas com deficiência no Brasil, Aldo Miccolis colaborou, em 1965, com a fundação do Clube dos Paraplégicos do Rio de Janeiro, hoje Centro de Amparo ao Incapacitado Físico (CAIF) e, em sua própria casa, por diversas vezes, abrigou moças com diferentes deficiências para formar o setor feminino da entidade, no bairro de Piedade, RJ. Por muito tempo foi procurador geral dessa entidade filantrópica.

  Quando Robson Sampaio, presidente do Clube do Otimismo, faleceu em 1987, a instituição entrou em crise e sua família, não conseguindo solucionar os graves problemas que a entidade enfrentava, chamou Aldo Miccolis para dirigir o clube, com o objetivo de salvá-lo da inadimplência. Aldo Miccolis aceitou o desafio.

   Em 1969, foi constituída a primeira delegação brasileira de atletas cadeirantes para competir em Buenos Aires, nos II Jogos Pan-americanos em Cadeira de Rodas, com deficientes do Rio de Janeiro e São Paulo. Na Argentina, o Brasil ganhou 17 medalhas. Daí para frente, nosso país participou de todas as competições internacionais.

   Em 1975, dentro do avião em que estava a delegação brasileira vinda de jogos internacionais no México, foi fundada a ANDE – Associação Nacional de Desportos para Deficientes, da qual foi presidente durante 25 anos. Em 1976, Aldo Miccolis assumiu a direção do esporte nacional dos deficientes. Muitos países foram visitados por ele e seus atletas paraolímpicos: Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Canadá, Estados Unidos, Checoslováquia, Argentina, Coréia do Sul, Japão, Irlanda do Sul, Uruguai, Chile, Peru, Jamaica, México, Ucrânia, Austrália, Grécia entre outros.

  Aldo Miccolis, ao longo de sua vida, tornou-se um grande incentivador da prática de várias modalidades esportivas para as pessoas com limitações congênitas, físicas e sensoriais. Enquanto por aqui viveu, ininterruptamente, por cinquenta e um anos, acreditou e trabalhou por isso.

   Junto à delegação paralímpica, foi recebido por grandes personalidades mundiais como o Príncipe Charles, Rei Juan Carlos, Papa João Paulo, entre outros. Obteve audiência com todos os Presidentes da República do Brasil, desde Castelo Branco a Luís Inácio Lula da Silva.

   Como homem de Deus, Aldo Miccolis teve uma vida de testemunho e de compromisso com sua fé, comportamento esse notado em toda parte por onde ele passou. Por diversas vezes, juntando-se aos atletas de Cristo da delegação, realizou cultos, distribuiu folhetos nos mais variados idiomas, mantendo-se firme na oração.

   Aldo Miccolis é Presidente de Honra do Comitê Paralímpico Brasileiro e Cônsul Paralímpico, tendo atuado como Vice-Presidente em anos anteriores. Também é Presidente de Honra da Associação Brasileira de Esportes para Cegos. Foi Presidente da FEPAN CP-ISRA (Panamerican Federation of Sports for Cerebral Palsy), que dirige a área para portadores de paralisia cerebral no mundo, foi membro do Comitê Executivo do IPC/Américas (Executive Committe of IPC/Americas) e Presidente do Clube do Otimismo. Aldo Miccolis foi detentor da Medalha Nacional do Mérito Esportivo, outorgada pelo ex-presidente José Sarney. Em 2001, foi homenageado pelo Sinodo da Igreja Presbiteriana do Brasil como personalidade do milênio e recebeu da Câmara Municipal a Medalha Pedro Ernesto, maior condecoração da cidade do Rio de Janeiro. No âmbito evangélico, atuou expressivamente em diversas lideranças; como diácono da Igreja Batista do Méier, ocupou diferentes funções em sua igreja, com muita dedicação; foi executivo da Associação dos Diáconos Batistas Cariocas, tendo fomentado o trabalho diaconal a nível nacional; trabalhou na Junta de Ação Social da Convenção Batista Carioca; além de ter pertencido aos Gideões Internacionais.

Outros dados biográficos

   Aldo Miccolis, descendente de italianos e gregos, nasceu em 28 de agosto de 1931, na Rua São Carlos, no bairro do Estácio, Rio de Janeiro. É filho de Mário Miccolis e Zulmira Miccolis. Evangélico, converteu-se em um trabalho evangelístico ao ar-livre realizado por um grupo de jovens da Primeira Igreja Batista em Inhaúma, onde foi batizado pelo pastor Walfrido Monteiro, com 21 anos de idade. Após sua conversão, participou de diversas igrejas batistas como Abolição, Engenho de Dentro, Água Santa, Quintino e Vila da Penha, fixando-se, até seu falecimento, na Igreja Batista do Méier.

   Foi Líder Geral dos Adolescentes Batistas Cariocas por um período de 10 anos consecutivos (1969 – 1978), realizando Congressos inesquecíveis, que reuniram milhares de adolescentes. Dedicou-se, de forma marcante, ao trabalho executivo da Associação dos Diáconos Batistas Cariocas e aos Gideões Internacionais, por causa de seu amor à Bíblia Sagrada.

   Aldo Miccolis foi casado com Mariúza Fiúza Miccolis. Pai de Shirley, Rosane, Mário José e Madalena, teve nove netos e dez bisnetos. Mariuza é cadeirante, cantora evangélica e junto com seu esposo visitava várias igrejas, compartilhando sua fé em Cristo e conscientizando os ouvintes para a causa da pessoa com deficiência.

   Frequentemente, Aldo Miccolis era convidado para palestrar sobre o trabalho paralímpico em diversas universidades, colégios, igrejas entre outros. Dessa forma, passava seu conhecimento na área e sua experiência, já que era a história viva do paradesporto.

    Por algumas vezes, tentou entrar para o cenário político a fim de defender seu ideal. Candidatou-se a deputado e a vereador, ficando na suplência. No ano 2000, obteve 6000 votos e a partir daí desistiu da política partidária passando a apoiar àqueles que se comprometiam a lutar pela nobre causa das pessoas com deficiência.

    Aldo Miccolis foi violinista, compositor e poeta. Autor do poema “Luminárias”, muito apreciado nas programações de abertura e encerramento de competições esportivas nacionais das pessoas com deficiência. É sobrinho da diva da música lírica no Brasil, a soprano Ida Miccolis; primo da escritora e poetisa Leila Miccolis e tio da mestre em harpa Ana Miccolis da Orquestra Brasileira de Harpas, pessoas famosas do cenário artístico do nosso país. Entretanto, o que, verdadeiramente, ele mais apreciava era ser chamado de “diácono”, por sua alegria no serviço a Deus.

Memorial Paralímpico

Nosso patrono doou várias medalhas, troféus, uniformes, recortes de jornais, fotografias, quadros de artistas plásticos, bandeiras, flâmulas, equipamentos, esculturas e entre outras peças que contam a história paralímpica brasileira, iniciada em 1º de abril de 1958, até os dias atuais. Esse importante acervo será exposto no Memorial Paralímpico, futuro projeto do IAM.

 Considerações finais

   Aldo Miccolis participou de todas as Paralímpíadas até seu falecimento, momentos que deram a ele muita felicidade por ver o fruto de seu pioneirismo e trabalho, ao ver os atletas da delegação brasileira defenderem o país conquistando muitas medalhas, brilhantemente.

   Seu pioneirismo e liderança no esporte paralímpico foi de suma importância para o movimento, pois cooperou na divulgação dos direitos de cidadania dos milhões de brasileiros vitimados pelos mais variados tipos de deficiência, sensibilizando autoridades e a sociedade em geral para as questões do mercado de trabalho, acessibilidade, saúde, educação, lazer, que são direitos constitucionais da pessoa com deficiência.

   Aldo Miccolis foi chamado para viver ao lado de seu Senhor, à 1h50min do dia 14 de dezembro de 2009, no Hospital Pasteur, no bairro do Méier, onde morava, no Rio de Janeiro, falecendo de infarto, muito embora tenha vivido 15 anos com um câncer de próstata, que não o intimidou. Seu corpo foi velado em sua tão amada Igreja Batista do Méier onde também foi realizado um culto de gratidão a Deus pela vida profícua que teve, estando presentes parentes, amigos e autoridades do cenário paralímpico e religioso, que lhe renderam homenagem num auditório lotado, compondo um cenário de muita emoção, por fim seu corpo foi sepultado no cemitério de Inhaúma.

   A humanidade perde a presença física de um grande homem. O legado deixado por ele é de valor inestimável, e, indubitavelmente, a prova de que sua existência não acabou, pois continua entre nós através de seus muitos frutos.

    Aldo Miccolis amava a vida, o próximo e a Deus sobre todas as coisas, e, enquanto viveu, fez-se incansável na defesa de seus ideais, nunca traindo seus princípios, o que foi motivo de orgulho para todos os que com ele conviveram. Exemplo de integridade, otimismo e fé.

(Texto escrito por Rosane Miccolis, filha e profunda admiradora de Aldo Miccolis.)

Rio de Janeiro, 2013.

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