O Patrono

o patrono

Aldo Miccolis – um nome fazendo a história

O nascimento do esporte para pessoas com deficiência no Brasil

Pode-se afirmar, sem dúvida nenhuma, que Aldo Miccolis é uma das pedras fundamentais do movimento paralímpico do Brasil. Um homem além de seu tempo. Desde 1958, sua luta foi bastante árdua, no sentido de divulgar o esporte e o direito de cidadania das pessoas com deficiência no Brasil. Naquela época, nada consistente acontecia a respeito. Ao formar 2 equipes de basquetebol em cadeira de rodas, viajou pelo país, visitando mais de 100 municípios, fazendo exibições e palestras, incentivando o paradesporto e a fundação de inúmeras instituições.

 Esta história verdadeira começou no chamado Dia da Mentira – 1º de abril: Era o ano de 1958. Nessa ocasião, foi fundado o “Clube do Otimismo”, por Robson Sampaio de Almeida, um cadeirante, evangélico batista, alagoano radicado no Rio de Janeiro, que após ter sofrido um trágico acidente nos Estados Unidos, ficou em uma cadeira de rodas. Para ajudar na realização de seu sonho em desenvolver um projeto social e esportivo, Robson convidou o jovem Aldo Miccolis, também evangélico batista, com 26 anos, que nessa época era preparador físico do Exército Brasileiro – um técnico esportivo campeão do 1º Exército e do Piedade Tênis Clube. Assim foram formadas as primeiras equipes de basquetebol em cadeiras de rodas no Brasil nessa entidade pioneira do esporte e da reabilitação de pessoas com deficiência do Brasil.

 Em 15 de novembro de 1964,  Aldo Miccolis foi um dos fundadores do Clube do Paraplégico do Rio de Janeiro (inicialmente, Clube do Paraplégico da Guanabara), no bairro de Piedade, exercendo papel importante nessa instituição, já que foi seu Coordenador e Procurador Geral por muito tempo, na qual implantou também o Setor Feminino e, até o local estar preparado para funcionar, por vezes, abrigou moças com diferentes deficiências em sua própria casa. O Clube do Paraplégico do Rio de Janeiro se tornou um importante centro esportivo para esse segmento de pessoas, onde Aldo formou uma equipe de basquete em cadeiras de rodas campeã que marcou a história do paradesporto.

Em 1969, foi constituída a primeira delegação brasileira de atletas cadeirantes para competir em Buenos Aires, nos II Jogos Pan-americanos em Cadeira de Rodas, com deficientes do Rio de Janeiro e São Paulo. Na Argentina, o Brasil ganhou 17 medalhas. Daí para frente, nosso país participou de todas as competições internacionais.

Em 1975, dentro do avião em que estava a delegação brasileira vinda de jogos internacionais no México, foi fundada a ANDE – Associação Nacional de Desportos para Deficientes, da qual foi presidente durante 25 anos. Em 1976, Aldo Miccolis assumiu a direção do esporte nacional dos deficientes. Muitos países foram visitados por ele e seus atletas paraolímpicos: Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Canadá, Estados Unidos, Checoslováquia, Argentina, Coréia do Sul, Japão, Irlanda do Sul, Uruguai, Chile, Peru, Jamaica, México, Ucrânia, Austrália, Grécia entre outros.

 Depois que Robson Sampaio de Almeida – primeiro presidente do Clube do Otimismo –  faleceu em 1987, a instituição teve mais dois presidentes. Ao entrar em crise, na possibilidade até de fechamento, sua família não conseguindo solucionar os graves problemas que a entidade enfrentava, chamou Aldo Miccolis para assumir a direção com o objetivo de salvá-la da inadimplência. Aldo Miccolis aceitou o desafio, já que tinha um grande apreço por essa instituição pioneira, onde ele começou a treinar os primeiros atletas com deficiência. Assim retorna ao Clube do Otimismo, sendo eleito em Assembleia de 22 de dezembro de 1995, iniciando, efetivamente, sua gestão nos primeiros dias de 1996.

Aldo Miccolis, ao longo de sua vida, tornou-se um grande incentivador da prática de várias modalidades esportivas para as pessoas com limitações congênitas, físicas e sensoriais. Enquanto por aqui viveu, ininterruptamente, por cinquenta e um anos, acreditou e trabalhou por isso.

 Junto à delegação paralímpica, foi recebido por grandes personalidades mundiais como o Príncipe Charles, Rei Juan Carlos, Papa João Paulo, entre outros. Obteve audiência com todos os Presidentes da República do Brasil, desde Castelo Branco a Luís Inácio Lula da Silva.

Como cristão, Aldo Miccolis teve uma vida de testemunho e de compromisso com sua fé, comportamento esse notado em toda parte por onde ele passou. Por diversas vezes, juntando-se aos atletas de Cristo da delegação, realizou cultos, distribuiu folhetos nos mais variados idiomas, mantendo-se firme na oração.

Aldo Miccolis é fundador e Presidente de Honra do Comitê Paralímpico Brasileiro. Essa nobre entidade foi criada em 09 de fevereiro de 1995, em Assembleia realizada no Instituto Benjamim Constant, quando Aldo assumiu a Vice-Presidência e ainda foi eleito “Presidente Emérito”, devido a sua importância no fomento do paradesporto, desde seu início. Posteriormente, reassumiu a Vice-Presidência do CPB, no período de 2001 a 2005.

Também é Presidente de Honra da Associação Brasileira de Desporto para Cegos (ABDC), da qual foi seu primeiro presidente, em 1984. Foi Presidente da FEPAN CP-ISRA (Panamerican Federation of Sports for Cerebral Palsy), que dirige a área para portadores de paralisia cerebral no mundo; foi membro do Comitê Executivo do IPC/Américas (Executive Committe of IPC/Americas), Presidente do Clube do Otimismo e, por 25 anos, presidiu a Associação Nacional de Desporto para Deficiente (ANDE). Aldo Miccolis foi detentor da Medalha Nacional do Mérito Esportivo, outorgada pelo ex-presidente José Sarney e recebeu da Câmara Municipal do Rio de Janeiro a Medalha Pedro Ernesto, maior condecoração da cidade.

No âmbito evangélico, atuou expressivamente em diversas lideranças: como na diaconia da Igreja Batista do Méier, onde ocupou diferentes cargos, com muita dedicação; foi executivo da Associação dos Diáconos Batistas Cariocas, tendo fomentado o trabalho diaconal a nível nacional; foi líder geral dos Adolescentes Batistas Cariocas (ABC) por dez anos consecutivos (1969 – 1979), realizando Congressos inesquecíveis, que reuniram milhares de adolescentes; trabalhou na Junta de Ação Social da Convenção Batista Carioca; além de ter pertencido aos Gideões Internacionais. Em 2001, foi homenageado pelo Sinodo da Igreja Presbiteriana do Brasil como Personalidade do Milênio.

Homenagens póstumas

Homenagens póstumas têm sido feitas a Aldo Miccolis como reconhecimento a seu trabalho: Prêmio Aldo Miccolis entregue pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) a uma personalidade ou a uma instituição cuja atuação ou apoio ao paradesporto nacional seja relevante. A Vila Olímpica do Encantado (situada no Rio de Janeiro) foi nomeada Vila Olímpica Aldo Miccolis, em 2015. O conjunto coral da ADBC passou a se chamar Coro Aldo Miccolis. Tanto a Associação dos Diáconos Batistas Cariocas (ADBC) como a Associação dos Diáconos Batistas do Brasil (ADBB) instituíram a Medalha de Mérito Diaconal Diácono Aldo Miccolis, devido à intensa dedicação do patrono a suas atividades. A Associação Nacional de Desporto para Deficientes (ANDE) criou a Comenda do Mérito Esportivo Professor Aldo Miccolis para condecorar personalidades ou entidades que se destacam na luta pelo paradesporto, em especial, das pessoas com paralisia cerebral.

Em 2016, nos Jogos das Paralimpíadas, realizado no Rio de Janeiro, foi homenageado na Cerimônia de Abertura, no Maracanã lotado, quando Rosane Miccolis, representando seu pai, seu pioneirismo e papel importante no fomento do paradesporto, levou a Bandeira do Brasil para ser hasteada ao som do Hino Nacional Brasileiro.

 Aldo Miccolis, ao longo de sua vida, recebeu várias placas de homenagens e postumamente continuou recebendo. Em tudo a graça de Deus é revelada para com esse homem que sempre teve uma atitude de alteridade, escolhendo dedicar sua vida para fazer diferença no seu tempo, deixando inegáveis frutos para a humanidade.

 Outros dados biográficos

 Aldo Miccolis, descendente de italianos e gregos, nasceu em 28 de agosto de 1931, na Rua São Carlos, no bairro do Estácio, Rio de Janeiro. É filho de Mário Miccolis e Zulmira Miccolis. Evangélico, converteu-se em um trabalho evangelístico ao ar-livre realizado por um grupo de jovens da Primeira Igreja Batista em Inhaúma, onde foi batizado pelo pastor Walfrido Monteiro, com 21 anos de idade. Após sua conversão, participou de diversas igrejas batistas como Abolição, Engenho de Dentro, Água Santa, Quintino e Vila da Penha, fixando-se, até seu falecimento, na Igreja Batista do Méier.

 Foi casado com Mariuza Fiuza Miccolis, em segundas núpcias, quando nasceu seu filho Mario José Fiuza Miccolis. Também Maria Madalena do Nascimento foi criada por ele desde seus cinco anos. Mariuza é cadeirante, cantora evangélica e junto com seu esposo visitava várias igrejas, compartilhando sua fé em Cristo e conscientizando os ouvintes para a causa da pessoa com deficiência. De seu primeiro casamento com Maria da Penha Miccolis nasceram suas filhas Shirley Miccolis e Rosane Miccolis. Dessa época, com sua alma agregadora, recebeu em sua casa cinco crianças parentes de sua esposa e os criou como filhos. Como fruto de seus filhos, ganhou 9 netos e dez bisnetos.

Frequentemente, Aldo Miccolis era convidado para palestrar sobre o trabalho paraolímpico em diversas universidades, colégios, igrejas entre outros. Dessa forma, passava seu conhecimento na área e sua experiência, já que era a história viva do paradesporto.

Por algumas vezes, tentou entrar para o cenário político a fim de defender seu ideal. Candidatou-se a deputado estadual e a vereador, ficando na suplência. No ano 2000, obteve quase 6000 votos e a partir daí desistiu da política partidária, passando a apoiar àqueles que se comprometiam a lutar pela nobre causa das pessoas com deficiência.

Aldo Miccolis foi violinista, compositor e poeta. Autor do poema “Luminárias”, muito apreciado nas programações de abertura e encerramento de competições nacionais das pessoas com deficiência. Foi sobrinho da diva da música lírica no Brasil, a soprano Ida Miccolis; primo da escritora e poetisa Leila Miccolis e tio da harpista Ana Miccolis, pessoas famosas do cenário artístico do nosso país.

De tudo, nutria um especial apreço pela função ministerial de “diácono”, à qual dedicou-se intensamente e tinha muito orgulho de fazer a obra de Deus.

Memorial Paralímpico – um sonho

Nosso patrono doou várias medalhas, troféus, uniformes, recortes de jornais, fotografias, quadros de artistas plásticos, bandeiras, flâmulas e entre outras peças que contam a história paralímpica brasileira, iniciada em 1º de abril de 1958, até os dias atuais. Esse importante acervo tem o objetivo de se tornar um Memorial Paralímpico, futuro projeto do IAM.

Considerações finais

Aldo Miccolis, junto à delegação brasileira, participou de todas as Paralímpíadas. A derradeira foi na China, em Pequim, no ano de 2008, quando vibrou com os atletas que defenderam o país, ficando em 9° lugar no mundo, conquistando 47 medalhas, brilhantemente.

Seu pioneirismo e liderança no esporte paralímpico foi de suma importância para o movimento, pois cooperou na divulgação dos direitos de cidadania de milhões de brasileiros vitimados pelos mais variados tipos de deficiência, sensibilizando autoridades e a sociedade em geral para as questões do mercado de trabalho, acessibilidade, saúde, educação, lazer, que são direitos constitucionais da pessoa com deficiência.

Aldo Miccolis foi chamado para viver ao lado do seu Senhor, à 1h50min do dia 14 de dezembro de 2009, no Hospital Pasteur, no bairro do Méier, onde morava, no Rio de Janeiro, falecendo de infarto, muito embora tenha vivido 15 anos com um câncer de próstata, que não o intimidou. Seu corpo foi velado em sua tão amada Igreja Batista do Méier e, no dia seguinte, sepultado no cemitério de Inhaúma.

A humanidade perde a presença física de um grande homem. O legado deixado por ele é de valor inestimável, e, indubitavelmente, a prova de que sua existência não acabou, pois continua através de seus muitos frutos.

Aldo Miccolis amava a vida, o próximo e a Deus sobre todas as coisas, e, enquanto viveu, fez-se incansável na defesa de seus ideais, nunca traindo seus princípios, o que foi motivo de orgulho para todos os que com ele conviveram. Exemplo de liderança, integridade, otimismo e fé.

(Texto escrito por Rosane Miccolis, filha e profunda admiradora de Aldo Miccolis.)

(Texto atualizado em 2019.)

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